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  • Fatores explicativos do bem-estar em lideranças escolares
    Publication . Almeida, Ana Patrícia; Pacheco, Patrícia; Ferreira, Marco; Rosa, José Maria Silva
    O desempenho de funções de liderança escolar é emocionalmente exigente e as consideráveis exigências experienciadas pelos diretores das escolas podem ter impacto no bem-estar de toda a escola. Num contexto educacional em constante mudança, a crescente pressão sobre estes profissionais pode afetar o seu desempenho profissional, a sua satisfação, a sua saúde mental e física, o seu bem-estar e relacionamento com os outros. A natureza do trabalho dos professores que assumem papéis de liderança configura um conjunto de desafios que podem resultar em sobrecarga de trabalho, o que põe em risco o seu bem-estar profissional e pessoal (Sutton & Gong 2021). Estes realizam ou desenvolvem um conjunto de tarefas relacionadas com a gestão de recursos humanos e materiais, avaliação, supervisão e inovação pedagógica, entre outras, num contexto educacional em constante mudança, aumentando a pressão sobre estes profissionais (Wells, 2013; Klocko & Wells, 2015; West et al., 2014). Estas tarefas incorporam recursos emocionais com impacto direto na saúde e bem-estar, na relação com os outros, tanto a nível individual como coletivo (Buskila & Chen-Levi, 2021; Heffernan et al., 2022; Stewart, 2014). Vários estudos têm demonstrado que uma liderança eficaz é imperativa para a mudança educacional e para assegurar um ambiente apropriado e um melhor clima organizacional (Kythreotis et al., 2010; Xu e Wang, 2008; Vigoda-Gadot, 2007). Lamberski (2016, p. 379) salienta que os comportamentos dos líderes, particularmente os líderes de topo, "moldam as emoções dos professores de formas importantes, influenciando a moral dos professores, burnout, stress, compromisso, eficácia pessoal e coletiva". Por outro lado, as mudanças sociais e as mudanças nos sistemas educacionais transformaram a escola numa organização cada vez mais dinâmica e complexa, onde os líderes assumem uma diversidade crescente de tarefas. Assim, e como reforçado por Tikkanen et al (2017, p. 259) "a liderança escolar é um trabalho exigente. Os envolvidos na liderança escolar têm revelado elevados níveis de stress no trabalho que, se prolongado, pode resultar em burnout ". Resultante da pesquisa sobre o conceito de burnout, emerge também o conceito de envolvimento no trabalho, que González-Romá et al. (2006, p. 166) concebem como "uma construção multidimensional descrita como um estado de espírito positivo, gratificante, relacionada com o trabalho, que se caracteriza pelo vigor, dedicação e absorção". Vigor, que está relacionado com altos níveis de energia e resiliência mental durante o trabalho e vontade de investir esforço no próprio trabalho e de persistir face às dificuldades; Dedicação, que se relaciona com o significado, entusiasmo, inspiração, orgulho e desafio e, finalmente, Absorção, que significa estar totalmente concentrado e envolvido no próprio trabalho, onde o tempo passa rapidamente e se tem dificuldade em se desligar (Schaufeli et al., 2002; González-Romá et al. 2006; Schaufeli & Bakker, 2004). A literatura sobre o bem-estar físico e mental dos professores e professores com funções de liderança também sublinhou que o propósito e a resiliência são variáveis relevantes e determinantes para o desenvolvimento profissional (Pambudi et al., 2022; Stoloff et al., 2020). A resiliência e o propósito têm sido associados ao bem-estar no trabalho. Embora existam poucas evidências empíricas sobre a ligação entre estes construtos e o bem-estar mental, físico e laboral dos professores portugueses que estão envolvidos em tarefas de gestão. Tendo como argumento apontado na literatura de que o bem-estar no trabalho é afetado por vários fatores, este estudo procurou explorar as relações entre resiliência, propósito e bem-estar em 921 professores que desempenham funções de liderança em escolas portuguesas. Para melhor compreender as relações entre estes fatores desenvolvemos um modelo conceptual de bem-estar de liderança escolar que foi empiricamente validado através de cinco hipóteses principais: H1 e H2: Espera-se que a Resiliência e o Propósito sejam preditores positivos do Bem-Estar no Trabalho em Líderes Escolares Portugueses. H3 e H4: Espera-se que o Bem-Estar Físico e Mental sejam preditores negativos do Bem-Estar no Trabalho dos Líderes das Escolas Portuguesas. H5: Espera-se que o Propósito (H5a) e a Resiliência (H5b) sejam mediadores da relação entre o Bem-Estar Mental e o Trabalho dos Líderes Escolares Portugueses. Os dados foram analisados através da modelação de equações estruturais e análise da mediação. Os principais resultados mostram que o bem-estar físico e mental são preditores negativos do bem-estar no trabalho de liderança escolar, enquanto a resiliência e o propósito predizem positivamente o bem-estar no trabalho. A análise de mediação revelou um efeito de mediação indireto: a resiliência amortece a relação entre o bem-estar mental e o bem-estar no trabalho. Em geral, os resultados deste estudo são consistentes com a literatura e contribuem de forma única para a compreensão da interação entre resiliência, propósito, bem-estar físico e mental e bem-estar no trabalho. Além disso, os resultados mostram que a resiliência preserva o bem-estar mental e a relação de bem-estar no trabalho. Pesquisas sobre a relação entre a resiliência e o bem-estar mostram que a resiliência apoia a manutenção e desenvolvimento do bem-estar (Hascher et al. 2021).
  • «O tempo de falar chegou!»: significado e importância teológico-política do apelo à nobreza cristã da nação alemã (12 de agosto de 1520)
    Publication . Rosa, José Maria Silva
    O texto Apelo à nobreza cristã da nação alemã, de agosto de 1520, é um dos mais importantes escritos reformadores de Martinho Lutero (juntamente com a atividade babilónica da Igreja, de outubro de 1520 e Acerca da liberdade do cristão, de novembro de 1520, entre outros). Texto de teor panfletário, não obstante as questões prementes do tempo a que queria responder, representa também um ponto de chegada nas disputas sobre as relações entre os poderes temporal e espiritual (De potestate), que tinham alimentado o debate teológico-político na Baixa Idade Média, nomeadamente no que se refere ao primado do concílio sobre o Papa (conciliarismo), primazia reconhecidamente antiga, e que, pelo menos desde João Quidort de Paris (1273-1306) a João de Gershom (1362-1429), contrariava a reivindicação papal da plenitude do poder (plenitudo potestatis papalis), não só na esfera dos assuntos temporais terrenos, mas também no plano interno da organização e administração da Igreja. A leitura papalista transgredia uma ideia do Papa Gelásio, no final século v, sobre a separação dos dois poderes ou dois gládios: o temporal e o espiritual, conceção sucessivamente traída ao longo de séculos pelo chamado augustinismo político, o qual, muito significativamente, procurava apoio no livro xixd’A cidade de Deus de Santo Agostinho. Não obstante, Lutero é também um leitor (parcial) de Santo Agostinho e de São Paulo e, como tal, procura pensar a Igreja não a partir da separação, oposição ou subordinação dos poderes, mas da graça e dos carismas (entre os quais o do dominium temporal de um dominus num reino), os quais são indispensáveis para a edificação do único Corpo de Cristo, que é simultaneamente temporal e eterno. Por este viés, todos os ministérios, inclusive aqueles considerados mais humildes, ganham grande valor espiritual (ou secularizamse, noutra perspetiva). Seja como for, na sequência da Querela das Indulgências, o apelo de Lutero que incita os príncipes alemães à autonomização face ao poder secular de Roma dá espaço depois (à custa de muito sonho e de muito sangue, tem de se dizer) à afirmação dos Estados-nação do sacro-império romano-germânico. Ao mesmo tempo, por via do primado do «sacerdócio comum dos fiéis» frente ao poder magisterial do «sacerdócio ordenado» (potestas ordinis), há neste opúsculo, no que se refere à interpretação e pregação das Escrituras, um potencial muito virulento, explosivo, e mesmo apocalíptico (estamos no fim dos tempos, o Anticristo está à porta, etc.), que, se politicamente rebenta logo os anos seguintes (1524-1525), nos campos da Alemanha, já de um ponto de vista hermenêutico mais amplo, recupera alguns processos de subjetivação e de apropriação dos «lugares de fala», bem como conceções nominalistas que já vinham ganhando relevância nos séculos xiv e xv, procedimentos que irão aprofundar-se quer na modernidade racionalista (do cogito cartesiano ao Ich denken kantiano) quer na modernidade fideísta do credo (Jansénio, Pascal, etc.). Não obstante, o que se impõe de forma premente, em 1520, é reformar a Igreja, pois «acabou o tempo do silêncio e chegou o tempo de falar!» («Die Zeit zu reden ist kommen»). E é esta decisão de Lutero de tomar palavra o que mais nos importa.