![]() Discursos de legitimação, legitimação de discursosUniversidade Aberta
0. Este título objectiva uma problematização assente num quiasmo, ou seja, na inversão da ordem nos segmentos simétricos do enunciado – título, segmentos, que, assim, se desenham em antítese. É, aliás, uma antítese que a topicalização acentua.
No primeiro caso (A), a reflexão incide sobre objectos discursivos com determinada função – legitimar. No segundo (B), a atenção foca-se em estratégias e processo(s) de legitimação de discursos. Ora legitimar tem origem em legitimus, que vem de lex, legis - a lei. Contudo, a forma lexical assume, hoje, acepções várias, tais como
LEGITIMAR pode assim ser sinónimo de justificar, desculpar, levar a admitir. Aplica-se, por conseguinte, ao que é justo, porque baseado na razão, na lei geral, até porque natural. Se compararmos agora as formas “legítimo” e “legal”, veremos que ambas fazem pressupor algo que não é proibido, antes pelo contrário. Será algo aprovado, recomendado e que, se não é seguido, nos deixa em falta. A forma legítimo aplica-se, porém, ao que é conforme ao direito, e a forma legal ao que é estipulado pela lei escrita – lembre-se que uma acção, ou até condenação, ilegítima, pode ser legal. Será sobre as acepções B e C que nos debruçaremos aqui. Partiremos, para isso, de um facto histórico – a morte de Inês de Castro a 7 de Janeiro de 1355. Sobre este tema se elaborará uma reflexão a incidir, predominantemente, sobre discursos de legitimação de outros discursos, ou seja, sobre aqueles discursos–instrumentais que permitem a ocorrência de estratégias e de percursos de legitimação de outros discursos, os discursos–objecto. 1.
Este episódio histórico, desenrolado em dois tempos, encontra-se,
quanto a nós, na encruzilhada discursos de legitimação – modalidades
de legitimação discursiva, situando-se, uns e outras, num contexto em
que co-ocorrem tipos de corpora dependentes de posicionamentos
sociohistóricos, posicionamentos inseparáveis de uma memória colectiva
e de uma instituição, a régia, que lhes conferem autoridade,
legitimando-os. Abrem-se aqui, contudo, dois tipos diferentes de
posicionamento e de acção, os de Afonso e os de Pedro, concorrentes num
mesmo campo discursivo, o dos discursos régios, logo institucionalmente
legitimados, discursos enraizados, naturalmente, em contextos e em
momentos históricos interligados, mas diferentes. Os
discursos de legitimação incidem, num primeiro momento, num assassinato
político que começa por ser exigido a Afonso; num segundo tempo,
igualmente decisório, surgem quando Pedro decide e manda aplicar o
castigo aos assassinos de Inês. Acontecem, então, conjuntos de
enunciados identificáveis, porque marcados por um sistema de regras
sociohistoricamente determinado. Lembre-se
ainda que, no reinado de Afonso, tais discursos ocorrem num espaço
marcado por reformulações, na interacção dialógica aberta pelos
discursos dos nobres – ”lieu de l’intersubjectivité parlante”
(Pêcheux). Esse primeiro bloco discursivo é produzido, como sabemos, por
agentes com poder sobre o Rei. São agentes que se assumem como
porta-vozes de um colectivo – o povo português, a nação portuguesa,
que, supostamente, teria aderido à proposta que aqueles nobres
desenvolvem e defendem. Será, assim, o país, o colectivo, que tais
agentes pretendem defender de Castela. Estamos pois ante a emergência do
interesse comum como argumento máximo apresentado ao Rei para legitimar a
sua decisão, quanto à proposta feita. O
poder, social e político, daqueles nobres, vai, gradualmente, tonar-se
visível através de um processo dialógico, fortemente argumentativo, em
que os conselheiros visam, ante a primeira resistência de Afonso IV,
mudar-lhe a atitude e o comportamento, para o levarem a assumir a decisão
que, segundo eles, se impõe. Para tal, usam saberes e experiências que
lhes permitem deixar agir, emocionalmente, no espírito do Rei, o fantasma
do perigo de Castela; usam ainda informações, que terão como efeito
persuadir, apelando, de novo, à razão, à autoridade, ao poder real,
definitivamente enfraquecidos, se o rei não legitimar, sancionando-o, o
crime de estado. Veja-se La Reine Morte, de Henry de Montherlant e
a obsessão deste pela figura de Afonso – Ferrante, figura que surge como herói de um patético dever. E Ferrante
desenha-se, à imagem de Afonso, como nó de contradições, fraco e
orgulhoso, severo em relação ao seus, cansado do poder, mas usando-o de
modo autocrático. Eis
o motivo por que, ante o rei Afonso, se mantêm inabaláveis os três
nobres, que não desistem de obter uma permissão especial, uma autorização
régia, formal, para o assassinato de Inês. Apresentam-no, repetidamente,
como acção política, legítima, na defesa do interesse do reino, como
acção conforme à justiça, à ética, ao próprio bom senso, a uma
necessidade de segurança ante Castela – aliás, talvez esta possa ser
considerada a razão mais forte, para além de marcadamente instrumental.
Daí as formulações argumentativas, condicionantes de uma decisão
solicitada à máxima autoridade legítima, aquela cujo poder é inerente
às próprias funções, aquela que se reveste de legitimidade régia, e
que, por conseguinte, consubstancia qualquer discurso decisório de
legitimação. Obtida
a decisão, os mesmos agentes farão que se cumpra a deliberação,
considerada conforme ao exigido pela memória de um passado colectivo,
conforme, portanto, às exigências e às necessidades de um povo.
Trata-se, assim, de uma decisão, não só compreensível, como necessária,
pois, caso não tivesse surgido, poderia ter havido consequências políticas
não imagináveis. E
o rei desenha-se como juiz, como decisor supremo e como protector de um
povo, apagando, mesmo se depois de luta íntima, o que nele tivesse podido
haver de natural e de humano. Conjugaram-se,
então, os três elementos para a sobrevivência do reino: rei, lei,
espada[1]. São,
ainda, os mesmos três elementos que marcarão o comportamento de D.
Pedro, quando chegado o momento da vingança – vingança desmesurada,
violenta, fantástica e que, ao longo da sua realização, e, porque
levada até ao fim, vai, no seu percurso de realização, legitimando um
discurso amoroso em alucinado devir, o discurso de Pedro. Aliás, a
legitimidade do seu agir está indissoluvelmente ligada à legitimidade do
seu poder régio, à do seu lugar institucional, à do seu querer e à do
seu saber que decidir, à do seu saber como o pôr em acção, como o
encenar em discurso e para além dele. Quaisquer
fundamentos ético-jurídicos do poder real são então abalados e, ao
contrário de Afonso IV, não é a faceta político-ideológica que se
destaca na dupla personalidade do rei, mas a pessoa que o encarna, a
personalidade natural e humana que, apenas porque instituição real,
apenas porque poder, conseguiu quebrar representações e estereotipias da
função, conseguiu até usar símbolos do próprio
poder (manto régio – vermelho, coroa, cetro, …), construir
encenações espectaculares de actos simbólicos[2]
e regular cerimónias régias, rituais de significado político, através
de imagens sacralizantes (exumação, trasladação, cortejo, coroação,
beija-mão, …). Trata-se de comportamentos e de atitudes espectaculares,
marcados por efeitos que tocam o maravilhoso e o mágico e que conseguem,
pelo menos a partir do momento da exumação – o do milagre popular da
ressurreição de Inês -, obter o consentimento deslumbrado, temeroso e
automático, de todo um povo. 2.
D. Pedro surge, como vemos, criando um dispositivo comunicacional,
desenvolvido num espaço e num tempo que lhe permitem encenar tanto o
dito, como o não dito, num acto extremo de vingança e de amor, acto
determinado por forças não racionais. Apaga-se,
por isso, a oposição Discurso –
Figura, esta, naturalmente, ligada a uma percepção visual indirecta,
instaurada por, e numa, experiência sensória discursiva, marcada pelo
visualismo tão característico de Fernão Lopes. É
também essa representação do real que se afina, no cronista, quando da
descrição de todo o processo da “mais
honrada” trasladação “que
ataa quel tempo em Purtugal fora
vista” (44.43-5). Diz Fernão
Lopes: “Fez trazer o seu corpo do mosteiro de Santa Clara de Coimbra […],
ho mais honrradamente que sse fazer pôde, ca ella viinha em hünas andas
[…] as quaaees tragiam grandes cavalleiros acompanhadas de grandes
fidalgos e muita outra gente e donas e donzellas e muita crllezia. Pello
caminho estavom muitos homĕes com círios […] acesos;
e assi chegaram atea o dito moesteiro
[…], onde com muitas missas e gram
solenidade foi posto em aquell muimento
[…] (44.33-43). Da
localização do túmulo de Inês no mosteiro – “nom
aa entrada hu jazem os rreis, mas dentro na egreja ha mão direita, acerca
da capela-moor” (44-31.32) – à do próprio túmulo do rei, tudo
foi encenado para quebrar barreiras, fossem elas de espaço (geográfico
ou social) ou de tempo (humano ou divino). É
um discurso que se constrói e legitima para lá do dito e para lá da própria
vida – tal como o amor que o determina, até porque “semelhante
amor quall el-rrei Dom Pedro ouve a dona Enes rraramente he achado em algüma
pessoa” (44.1-2 ). E
se esse quebrar de fronteiras ( vida, espaço, tempo, …) legitima o
discurso amoroso de Pedro, é ele também que vai ser o cerne do que, não
só o povo, como vários autores, viram na história mitificada. 3.
Entre esses autores, destaco António Patrício e a sua peça Pedro, o Cru[3],
escrita em Cantão em 1913 – peça onde, mais uma vez, ecoará o amor de
Pedro, “o seu sangue a correr
pelas palavras”[4].
A tragédia de Pedro e de Inês impôs-se ao escritor, ao poeta, que não
escolhe temas, mas que se torna deles presa involuntária, segundo
palavras de Patrício. E foi como presa, como presa da questão da permanência
do amor depois da morte da amada, tema que sempre o obcecou (veja-se o
conto “Suze” ou a peça Dinis e Isa, por exemplo), que o
poeta procurará solução apaziguadora. Assim,
Pedro, e o extremo a que levou a legitimação do seu amor pela mitificação
e eternização do mesmo, surge como a personagem humana central,
propondo-se, o autor, partir dele, para atingir o universal. Trata-se de
uma escolha, talvez marcada por Nietzsche, escolha essa que destaca o
indivíduo em que haja uma realização suprema, realização conseguida,
pela “identification avec les
forces primordiales les plus essentielles du monde[5].
Aliás, só por elas, aqueles
em que há algo de louco, aqueles que estão marcados por uma
“genialidade adivinhante”[6]
e que assim se tornam “God’s
spie”, só por elas os poetas poderão tentar
penetrar “le fond le plus
secret des choses”[7]. Daí
que, talvez por sentir a dimensão cosmogónica do mito, o poeta o abra
para o eterno – até pela disposição dos túmulos, “p’ra, no juízo
final, ao despertar, ver raiar nos olhos d’Ela a eternidade”
(130). Essa mesma dimensão terá levado Patrício a abandonar a preocupação
de reconstituição histórica. Mantém contudo factos indiciais, porque
premonitores: o rei açoitando o Bispo do Porto e
castigando os assassinos, a exumação de Inês, o cortejo fúnebre,
a coroação. Descrições objectivas? Subjectivas? Ambas. Por isso, a
estratégia contrapontística que marca o diálogo entre o escudeiro e o
rei. Exemplifiquemos - Afonso, o escudeiro, diz: “A corte está semi-morta de fadiga e coberta de lama […]”.
Pedro contrapõe: “Tudo lindo,
Afonso. Tenho tudo nos meus olhos. Os círios, não podendo abrir alas,
espalharam-se no pinhal, como sem tino … Era, em cada charco, uma
paisagem subterrânea de saudade, um correr de arripios, de reflexos… Inês
[…]
ia assim baloiçada entre dois mundos … Os peões, os cavalos
chapinhavam, com um som mole, amortecido em névoa…; as ramas, na água,
eram plumas; dos círios – centenas de círios – caíam estrelas de
sangue na água morta… cada coisa olhava a sua imagem: já não havia
terra – só espelhos…; mesmo o ar era um espelho de ambar, em que o
luar se mirava… E cheirava a resina, a morte, a névoa […]”
(140-1). E
assim seguia o cortejo que, para Pedro era como “uma corte de
espectros levando o seu amor […]
pelas estradas de um planeta morto” (120-1). O
povo, religioso, temeroso talvez, acreditava que Inês estava de novo em
vida, interpretando a exumação como um milagre. Falavam da canonização
de Inês (“canonizada por Pedro na sua dor”), de Inês, rainha, a quem as
folhas secas “das árvores do
Outono” (139) “ beijaram a mão”.
O rei, esse, continuava “num
turbilhão de estrelas”, o seu caminho de purificação, de amor, de
acesso, a um mundo fustigado pelo “ vento
da eternidade”. É que “o
amor, só abraçado à morte, inicia, sabe a Deus” (146). Será então
esse o momento em que a alma de Pedro respirará o olhar de Inês, “luz
de Deus”. Entretanto,
o rei caminha, falando da sua transformação e da do mundo –
falando-nos da lua que “nunca
esquece Inês” (26), das estrelas “roxas
de frio” (22), do Mondego “a
escorrer lua” (27), dos choupos “que
a lembram e amaram” (27), das laranjeiras “magoadas
…, como se a saudade as triturasse” (28), das folhas secas “que, na noite morta, rasteja[vam],
tanta vez, com os seus suspiros”. (27) Também
no convento, o espaço reza, as chamas se baixam para ver Inês, as
arcadas do claustro “se arqueiam
mais”, pois “o granito,
sentindo que a cobre, quer ser céu”. Toda
a Natureza se transforma e acompanha o cortejo: as nuvens, o vento que
nelas se deita a rezar, os olivais que “se
ajoelham” (120), as andorinhas que “escolheram
esse dia para emigrar”. Era o “coração da natureza pregando
na Eternidade o amor do rei” (120). Há, por isso, na encenação
sonora : “um murmurinho de vento
[…]
que acorda os choupos”,
“halales soando em dobre”.
Mas há também silêncios e há perfumes. Há depois formas esboçadas. Há
luzes e cores em vitrais “entumescidos
de sol, violeta e sangue” (153) ou “azulados
de lua” (129). Há brilhos e reflexos
que, subitamente, se apagam; há círios que lembram “pirilampos
de luar voando” (100). A noite das bodas “supremas” surge então como aquela em que a Saudade andará pelo
Mundo, aquela em que “o Céu e a
Terra [ serão... ] dois abismos a beijar-se” (138)[8].
E o próprio Outono se transformará no “idílio
da Natureza com a Morte,” a Morte que tudo domina com o seu bafo
(102-3). Ao lado dela, a Saudade torna eterno o Amor. Eis por que o drama
surge como “tragédia da Saudade”[9],
como mito passional, primitivo e sagrado, expressão simbólica de uma
experiência única, mas que, na sua unicidade, toca o universal. 4.
Enraizámos a legitimação, como processo, na prática discursiva,
espaço de interacção entre a dimensão enunciativa dos discursos e a
sua dimensão institucional, ou seja, “entre les deux faces, sociale
et textuelle, du discours”[10]. No
caso de Afonso IV, decidindo a morte de Inês, há um domínio da instituição
política e social da discursividade sobre a subjectiva. Daí o papel
preponderante do interdiscurso, visto como “espace d’échanges
entre plusieurs discours”[11],
como espaço onde co-ocorrem formações discursivas em que os
enunciados-discursos integram uma tipologia com base na situação (J. P.
Adam 87). O
caso de D. Pedro, em Pedro, o cru, integra-se, pelo contrário,
numa tipologia de base enunciativa (Benveniste); em que, num discurso máscara,
Patrício retoma, do par mítico, a figura de Pedro, mas ampliando-a,
redimensionando-a. Isto, porque a usa para ultrapassar o facto histórico,
procurando a lenda, como narrativa popular, maravilhosa, embora ainda com
base histórica, para, através dela, atingir um mito onde interagem, em
rituais marcados por uma religiosidade de efeitos mágicos, elementos não-humanos
(o Amor, de que Deus, é a expressão máxima, amor esse que transforma
Pedro em personagem simbólica, fora do tempo e do espaço, o mesmo Pedro
que será joguete de agentes intermediários – o Destino, a
Morte, a Saudade). E
é através de Pedro, herói de sempre na memória colectiva e no imaginário
popular, que Patrício fabrica evidências sobre o eterno, enraizando-as
em acontecimentos históricos com funções legitimantes. Deste modo se
explica que a tessitura dramática, na complexidade das redes que encena,
ponha em jogo, e à prova, uma hipótese de solução cosmogónica, poética
e misteriosa, que facilitará ao homem a aceitação da Morte, porque a
viu dominada pela Saudade, pelo Amor e por Deus, num percurso de legitimação
que tem tanto de maravilhoso e de mágico, como de religioso. Trata-se de
um percurso que acalma apreensões, que tranquiliza e que explica, mesmo
se simbolicamente. Legitima-se
assim um discurso mítico, discurso, como vimos, com funções
legitimantes da hipótese de solução apresentada para uma angústia colectiva, não só ante a Morte, como ante a morte da pessoa
amada. E assim o mito faz-se crença, desdobra-se em cerimonial, atingindo
uma amplitude cósmica e agindo, emocionalmente, em nós, talvez porque
“tragédia intima”, porque drama de figura, em que factos históricos,
tornados pretexto, se tendem a apagar, envoltos num clima de mistério,
marcados pelo oculto, por um maravilhoso, uma magia e uma religiosidade poéticas
que transfiguraram esta visitação do mito. Nela, a antropomorfização
da natureza atinge laivos nietzscheanos, dionisíacos. E será ela que
permitirá, segundo Patrício, “fundir nossa alma em toda a vida
imensa e misteriosa”[12].
Depois, também como
em Nietzsche[13],
há sempre latente a questão, aceite-se, ou não, a resposta, dada por
Patrício à pergunta: “comment
spiritualise, embellit et divinise-t-on un désir?” Foi
essa a base do mito trágico, em que o poeta tentou “la dissolution
libératrice par un sentiment d’identification mystique avec les forces
les plus essentielles du monde.”[14] Mas
se, em Nietzsche, o que seduz o homem é o nada, em Patrício, o que o
domina é o eterno, imbuído de religiosidade. Assim, em Pedro, o Crú,
desenha-se, nítida, a relação com as forças essenciais e com os
poderes invisíveis que dominam o homem, relação – fusão a ter lugar
quando da união final de Pedro e Inês. E
o poeta lembra que a Morte é o
“sal da vida”, sendo “o sentido da vida [...] o
sentido da morte”.
Patrício
aproxima-se assim, também, de Maeterlinck[15]
que escrevia
“C’est notre mort qui guide notre vie, et notre vie n’a d’autre
but que notre mort”. E
a Morte é a “Serva do Destino”, sendo que, só através dela,
o amor se toca de eternidade. A mulher morta vai viver além da vida,
continuando, embora, primeiro pela saudade, o contacto com o amado, a
realizar, mais tarde, “muito longe, talvez no coração de Deus…”[16].
E, assim, mesmo tendo Inês partido, continuou perto, ficando a errar,
transfigurada, “na luz, no ar, no som”[17],
sempre ao lado de Pedro. E
não há vida, nem morte, há só amor, que “inicia”,
transformado pela saudade, que “sabe a Deus”[18].
Dominando-os, surge o Destino, tal como em Nietzsche – “On est un
morceau de destinée”[19].
E Patrício escreve: “Alguém, o meu destino, leva-me pela mão… Eu não sei o que faço, vou
sem tino, E, a cada passo meu, cai morto um coração.”[20] Eis como um discurso teatralizado, encenado, se
legitima e assume foros de verdade, ao mostrar-nos “de quelle façon, sous
quelle forme, dans quelles conditions, d’après quelles lois, à quelle
fin agissent sur nos destinées les puissances supérieures, les
influences inintelligibles, les principes infinis, dont, en tant que poète,
il est persuadé que l’univers est plein»[21].
O
discurso legitima-se ainda, porque consegue dar, ao drama ,
«cet arrière plan profond, cet image des cimes, ce courant d’infini…
[qui] paraît nécessaire pour que l’œuvre dramatique coule à pleins
bords et atteigne un niveau idéal»[22]. 5. A arte surge assim com uma função metafísica e metafórica
que também Nietzsche lhe reconhecia. Daí que os próprios actos
terrenos, como o casamento de Pedro e Inês, surjam como expressão simbólica
de uma experiência mística, experiência que abarca o Cosmos, até
porque vivida pela própria Terra que, em “sonho deslumbrado”,
tem “montes e mares a erguer as mãos ao céu velado”[23]. E o poeta vê as bodas
da terra e do céu, do amor e da morte, na noite em que Pedro leva Inês
para Alcobaça, onde a acção última se desenrolará . Então tudo se
torna sensível pelo silêncio –
“o silêncio d’Ela […] que é nudez perfeita, em que as
formas se contemplam puras… Há [nesse momento] um reflexo de eterno que
lhes bate. O tempo, essa máscara de horas, já caiu “. Depois fica o
Outono, porque “idílio da Natureza e da Morte”[24],
em que, tanto o silêncio, como a magia
verbal se tornam “medium de mistério”[25]. O
discurso dramático encenado por Patrício atinge assim uma “arte
total,” marcada por formas, luzes, cores, perfumes, ... tudo vivo e
em movimento: “É o sol que aureola Inês, o luar que escorre em
sangue de vitral”[26].
É uma trama estranha de elementos,
elementos que se constituem
“em sugestões latentes, [em] domínios que pareciam de outras artes”[27]. Há,
assim, um conteúdo legitimado pela complexidade de um discurso dramático
que quebra todas as barreiras, tornando-se Patrício “um criador de
Formas, um poeta da cena: porque [inverte] gestos, ritmos, toda uma
linguagem teatral [que serve] as necessidades da sua causa e que fala aos
olhos tanto quanto aos ouvidos. Cria os seus meios de expressão, segundo
o sentido profundo da obra”[28]. E este sentido profundo enraíza-se numa identidade cultural que transparece nos temas que se lhe impõem ao subconsciente e que “nunca podem contradizer o génio da raça que precisamente através deles se revela”[29]. São temas que também respondem – e também aí se legitimam – a uma inquietação em que há ansiedade, medo, desespero . A arte torna-se assim actividade
metafísica e, tal como para Nietzsche, “L’art [devient] la tâche
la plus haute et l’activité essentiellement métaphysique de cette vie”[30]. Verdade metafísica? Seja esta, outra questão em suspenso. Mas discurso
legitimado, sim, basta sentir “o
ritmo da […] obra” ou a “imagem [...], a visão [construídas]”;
basta “dirigir o olhar para o ponto [que nos é indicado]”,
basta ”olhar pela fenda que [o poeta] abriu,
[fenda...] que reproduziu em nós essa imagem[31]. E assim se dá a legitimação de um discurso, comportamento formal de resposta a angústias, a tendências emocionais, ou talvez até a tropismos, que orientaram ou facilitaram, em Patrício, a encenação ritualizada de uma tragédia, qual mito mágico e religioso. O sagrado penetra então uma vivência colectiva, para além do facto de o próprio sagrado reflectir um corpo social, uma força e uma autoridade colectivas que transcendem o indivíduo, num rito comemorativo (Lévy-Strauss) que articula tempo, em devir, com representações, ou símbolos, situados fora desse mesmo tempo. No próprio espaço da exumação e da coroação, acontece um ritual tripartido, de passagem: na fase 1, D. Pedro separa-se de um grupo – a corte; na fase 2, a do castigo dos assassinos de Inês, acentua-se o seu isolamento, a sua quase marginalização; na fase 3, ocorre a reintegração do todo numa nova situação social e política – Inês é rainha. O ritual marcou uma transição, um tempo e um espaço de ruptura, partindo de uma situação de margem, centrando-se, depois, no destino social e na mudança de estatuto de um indivíduo, Inês. Para além disso, desenrolaram-se processos interactivos, verbais e não – verbais, que uniram um drama, marcadamente estático, a funções comunicativas, algumas institucionalizadas, a funções expressivas e simbólicas, produtoras de significação e que reforçaram, quando da comunhão de um Rei com o seu povo, representações colectivas, até do próprio “milagre”. Aos discursos de legitimação de Afonso e dos seus conselheiros, opôs-se, neste drama, a legitimação dos discursos de um rei e de um povo, que, na magia e numa religiosidade com efeitos cósmicos, efeitos que atingem o milagre, segundo a interpretação popular, debelaram a desordem virtual que teria podido ocorrer depois do castigo dos assassinos de Inês. Temos assim, por um lado – no período de Afonso IV, acontecimentos dominados por uma dimensão individual e por mentes, sobretudo racionais, que manipulam, emocionalmente, um sentimento colectivo – o temor atávico que o povo tinha de Castela, visando processos decisórios, sociopolíticos, centrados no Rei Afonso. Por outro lado – no reinado de Pedro, acentuam-se, quer uma dimensão individual polarizada no Rei, quer processos psicológicos de um colectivo, processos, aqui, sobretudo, emocionais e instintivos, que estão na base de acções rituais, da manipulação de objectos simbólicos, atitudes e crenças populares, num complexo de relações de violência e vingança, de morte e dor, de amor e saudade, em trama marcada por uma relação dominante, a relação Homem - Deus. Passa-se do mundo ao fantasma ou, como escreveu Lyotard, aceite-se o facto de “a lição de Freud [ter] ultrapass[ado] a de Husserl”[32]. Isto, porque, na legitimação do seu amor, Pedro transformou determinados espaços em lugares sagrados, abrindo a relação entre Deus, Inês e alguns seres vivos, mortais ou outros – e, entre estes, destacamos a Natureza, o Amor, a Saudade, a própria Morte. E tudo se transforma em templo cósmico “où de vivants piliers laissent parfois sortir de confuses paroles”. Nesse templo, que o Amor criou, enraíza-se a memória, memória que, tanto é permanência indesejada na dor que acarreta, como ruptura construída que visou a eternidade. Deste modo, de uma memória dolorida, individual, a de Pedro, o drama reinsere-se, pela vivência colectiva, numa memória global, através de processos de legitimação de um discurso amoroso, o de Pedro, Rei : “O importante foi transformar a existência em mito, […] porque só o legendário é verdadeiro”[33] – e se torna eterno.
Notas [1] Libro de los Cien Capítulos, Bloomington - Indiana: ed. Agapito Rey, 1960, Cap. I, p.1. [2] Sanha cruell sem piedade, lhos fez per sua maão meter a tromento” 31.85-6; “e el-rrei dizendo que lhe trouxessem cebolla e vinagre pera o coelho […] mandou-hos matar”31.94-6. “A maneira de sua morte, seendo dita pello meudo, seria mui estranha e crua de contar, ca mandou tirar o coraçom pelos peitos a Pêro Coelho, e a Alvoro Gonçallvez pellas espadoas […] Enfim mandou-hos queimar: e todo feito ante os paços onde elle pousava, de guisa que comendo o olhava quanto mandava fazer” – 31.96-103. Lopes, Fernão, 1966, Crónica de D. Pedro – edizione critica, com introduzione e glosario a cura di Giuliane Macchi, Roma, Edizioni dell’Ateneo. [3] Patrício, A., 1918, Pedro, o Cru. Lisboa, Assírio & Alvim, 1990. [4] Patrício, A., 1910, Serão Inquieto. Lisboa, Assírio & Alvim, 1990, p.214. [5]
Nietzsche, F., 1931, L’origine de la tragédie. Paris, Mercure de France, p.34. [6] Serão Inquieto, p.103. [7]
Nietzsche, F., 1906, Le crépuscule des Idoles. Paris, Mercure de France, p.143. [8] Patrício, A., “A criança”, in Poesias. Lisboa, Edições Ática, 1942. [9] Prefácio a "Dinis e Isa", 1919, in Teatro Completo. Lisboa, Assírio & Alvim, 1982. [10]
Maingueneau, D., 1990, Pragmatique pour le discours littéraire.
Paris, Bordas, p.39. [11]
Maingueneau, D., 1984, Genèses du Discours. Liège, Mardaga,
p.11. [12]
Op. Cit., Oceano, 1905, p .98. [13]
Le crépuscule des idoles,
p.127. [14]
L’origine de la tragédie,
p.33-34. [15]
Le Trésor des Humbles,
in Thêatre. Paris, Charpentier, 1929. [16] Prefácio a D. João e a Máscara. Lisboa, Aillaud & Bertrand, 1924. [17] Oceano, p.58. [18] Pedro, o Cru, p.145. [19]
Le Crépuscule des Idoles,
p.155. [20] Oceano, p.45. [21]
Maeterlinck, M., “Préface”, Op. Cit.,
Vol. I. [22] Ibidem. [23] Oceano, p.57. [24] “A Criança e a Morte”, in Serão Inquieto, p.205. [25] Ibidem. [26] Pedro, o Cru, p.26. [27]
Dullin, Charles, 1946, Souvenirs et notes de travail d’un acteur.
Paris, Odette Lieutier, p.70. [28] Ibidem, p.77. [29] Diário de Notícias, 1929-04-11. [30]
L’origine de la tragédie, p.22-23. [31]
Croce, B., 1945 (5ª ed.), Breviário de Estética. Col.
Austral, Ensayos e Filosofia, nº 41. Buenos Ayres, Espasa-Calpe,
p.20. [32]
Lyotard, J., 1978, Discours, Figure. Paris, Klincksieck, 3ª
ed., p. 73. [33]
Ibidem. ![]() | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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