Como era gostoso o meu índio, discursos legitimadores franceses do séc. XVI sobre o índio canibal

Luís Carlos Pimenta Gonçalves

Universidade Aberta

 

No capítulo «Guanabara» de Tristes Tropiques, sobre a implantação e desagregação de uma colónia francesa no Brasil em meados do século XVI, matéria das obras que examinaremos, Claude Lévi-Strauss conta que ao visitar a Baía do Rio de Janeiro levava no bolso «Jean de Léry, breviário do etnólogo»[1]. Segundo o autor esse episódio da colónia da francesa daria para um romance ou um filme[2]. Numa entrevista, afirmava ainda que o relato de Léry era «uma grande obra literária»[3]. Desde então, dois romances franceses vieram satisfazer esse desejo de uma ficção baseada na história da colónia francesa, como adiante veremos.

A nossa intervenção centrar-se-á nos discursos que até certo ponto legitimam, nolens volens, a prática antropofágica dos índios do Brasil no século XVI. Prática essa que tem duas interpretações: a primeira, assimila o canibalismo a uma vingança suprema; a segunda, considera o acto como a expressão de uma necessidade alimentar. Se no século XVI, o canibal aparece legitimado como seguidor de um ritual arcaico, no século XVIII, a sua figura é descrita por um Daniel Defoe como a expressão de um bestial apetite de que é salva a personagem de Sexta-feira.

Tentarei nesta comunicação evocar, em primeiro lugar, como os quinhentistas franceses, André Thevet, Jean de Léry e Michel de Montaigne, relataram a antropofagia dos índios do Brasil. Em segundo lugar, analisarei como este fenómeno aparece também retratado em dois ficcionistas do século XX: Gilbert Pastor e Jean-Christophe Ruffin, cujo romance Rouge Brésil ganhou redobrada projecção ao receber em 2001 o prémio Goncourt  (romance aliás já traduzido em Português).

 

André Thevet e As Singularidades

Em 1557 é publicada as Singularitez de la France Antarctique do franciscano André Thevet, fruto da sua participação na expedição comandada pelo almirante Nicolas Durand de Villegagnon, encarregue pelo rei de França de estabelecer uma pequena colónia na baía do Rio de Janeiro. Primeira obra de conjunto sobre este episódio em língua francesa, as Singularidades falam dos índios Tamoio, subgrupo dos Tupinambás.

André Thevet, ajudado na redacção pelo helenista Mathurin Héret, multiplica as referências à Mitologia e à Antiguidade, tornando mais aliciante para um leitor quinhentista o teor das observações consignadas nas Singularidades. Costumes que poderiam parecer incompreensíveis pela sua total estranheza, e mesmo repreensíveis, são interpretados: a nudez dos índios, por exemplo, é assim tornada mais aceitável se comparada com exemplos da Antiguidade e da Idade Média. Bem mais tarde, em 1584, chefes índios, como Quoniambec, vão ser legitimados por Thevet ao aparecerem na sua obra, Vrais Pourtraits et Vie des hommes illustres ao lado de Alexandre, César ou Francisco I de França. Thevet que participa na instalação da pequena colónia francesa no Brasil, fala da sua experiência e não só, visto extravasar para além do que poderia ter realmente observado durante uma estadia de pouco mais de dois meses, entre 10 de Novembro de 1555 e 31 de Janeiro do ano seguinte. Assim, terá sido obrigado a coligir as suas próprias observações com informações recolhidas pelo secretário de Villegagnon junto de intérpretes franceses. 

No capítulo trinta e nove das Singularidades, Thevet explica a razão das guerras entre os índios que não assentam num desejo de posse de bens ou de terras, de que não necessitam, mas sim numa inimizade ancestral. Ritualmente, descreve o autor, o combate começa por ameaças de parte a parte: «Somos corajosos (dizem eles), comemos os vossos parentes e por isso vamos comê-los»[4]. Mais adiante vê-se comentada esta prática canibal: «A maior vingança utilizada pelos selvagens, e que lhes parece ser a mais cruel e indigna, é comer os inimigos.»[5] Se a vitória não estiver assegurada, os índios decepam braços e pernas para serem comidos no próprio local ou levados para a aldeia. Na tentativa de tornar menos repulsiva a prática canibal, Thevet, ou melhor Mathurin Héret, compara este acto com o que era comum entre os «antigos turcos, mouros e árabes». Esta vingança antropófaga estende-se aos aliados das tribos inimigas. Basta para isso lembrar o relato de Hans Staden, cativo dos índios, ou o que conta o próprio Thevet:

Quelque peu avant notre arrivée, les Amériques qui se disent nos amis avaient pris sur la mer un petit navire de Portugais étant encore en quelque endroit près du rivage, quelque résistance qu’ils pussent faire, tant avec leur artillerie que autrement ; néanmoins il fut pris, les hommes mangés, hormis quelques-uns que nous rachetâmes à notre arrivée.[6]

Thevet é o primeiro a introduzir a noção de vingança para explicar o canibalismo dos índios, utilizando uma expressão idiomática francesa: «se venger à belles dents». A vingança, por mais cruel que pareça, sendo um sentimento universal de que já fala o Antigo Testamento, relativiza o canibalismo. Aliás, Thevet reconhece que os índios acabam por materializar em actos o que a sabedoria popular sob forma de provérbio reconhece: «je voudrois avoir mangé de son coeur».

No capítulo quarenta, Thevet descreve como se passa o cativeiro e morte do inimigo. Deixado em liberdade, na aldeia, durante quatro ou cinco luas é-lhe atribuído uma mulher. Bem tratado é alimentado como se de um capão se tratasse. No dia da execução, canta em forma de desafio:

Les Margageas nos amis sont gens de bien, forts et puissants en guerre, ils ont pris et mangé grand nombre de nos ennemis, aussi me mangeront-ils quelque jour, quand il leur plaira ; mais moi, j’ai tué et mangé des parents et amis de celui qui me tient prisonnier[7].

Em conversa com alguns dos índios presos, Thevet descobre o pouco receio que têm da morte porque, mais cedo ou mais tarde, serão vingados. Depois de ter invectivado os que o derrotaram, o cativo é morto com uma pancada na cabeça como se se «tratasse de um porco». Às crianças, lavados no sangue da vitima, é lhes dito que, quando forem crescidas, terão de tratar de igual modo os inimigos. O corpo esquartejado é distribuído por todos os membros da tribo. O índio responsável pela execução retira-se e passa três dias sem sair, jejuando durante igual período. Intuitivamente, o Franciscano assimila, sem o nomear, o acto a um ritual de purificação. Apesar desta crueldade, Thevet relativiza o feito ao citar o cerco de Jerusalém, pelo futuro imperador Tito Flávio Vespasiano em 70 d.C, que levou as mães a comerem os próprios filhos. Acrescenta ainda que os Citas eram considerandos antropófagos pelos historiadores como Heródoto (História IV, 65).

Como muitos franceses, que hesitam então entre o catolicismo e a Reforma, Villegagnon é atraído inicialmente pela doutrina calvinista. Por isso, pede a Calvino, de que foi condiscípulo, o envio de pastores e de seguidores do protestantismo. Pouco tempo depois do desembarque em 7 de Março de 1557 de catorze calvinistas, entre os quais o jovem Jean de Léry, estala o conflito durante o Pentecostes de 1557 entre Villegagnon e os ministros do culto protestante. Em causa uma questão que divide católicos e protestantes calvinistas: para os primeiros, o corpo e o sangue de Cristo estão verdadeiramente contidos no pão e no vinho durante a Eucaristia; para os segundos, a sua presença é unicamente simbólica. Os calvinistas consideram por isso a missa dos «papistas» como o acto antropofágico dos «papa-Deus», acto tão, senão mais hediondo para eles que o canibalismo praticado pelos índios.

Jean de Léry e a História de uma viagem

É preciso esperar mais de vinte anos para ver publicado o relato de Léry, devido ao facto do manuscrito se ter perdido por duas vezes na França conturbada das Guerras de Religião. Finalmente, em 1578, a Histoire d’un voyage faict en la terre du Brésil, do calvinista Jean de Léry, surge como uma resposta a Thevet que acabara de publicar, em 1575, uma Cosmographie universelle que atacava violentamente os ministros enviados ao Brasil por Calvino. Para além das divergências religiosas, os dois autores têm em comum o facto de descreverem aspectos etnográficos e de apresentarem e interpretarem, de forma compreensiva e aceitável para um leitor francês, o fenómeno canibal.

Jean de Léry que passou quase dez meses no Brasil, entre 7 de Março de 1557 e 4 de Janeiro de 1558, aparece assim como uma testemunha privilegiada dos costumes dos tupinambás. Daí que a História de uma viagem irá obtenha um êxito substancial, saindo seis edições durante a vida do autor. Edições aumentadas progressivamente em sucessivas respostas aos seus adversários e onde parte do capítulo seis consubstancia o essencial dos diferendos entre católicos e protestantes da pequena colónia francesa. Na sua dedicatória da segunda edição de 1580, ao conde François de Coligny, Jean de Léry acusa Thevet de ter querido denegrir a causa pela qual fizeram a viagem[8]. No prefácio para legitimar o seu próprio relato tenta desacreditar as obras de Thevet acusadas de falsearem a realidade[9], ou para empregar as palavras de Léry de «mentir [...] cosmograficamente», alusão à Cosmografia Universal e ao título de que ele se outorgara de «Cosmógrafo de quatro reis».

Tal como Thevet, Léry relata minuciosamente a detenção e os bons tratos que o inimigo recebe durante o seu cativeiro. No dia da execução são convidados os habitantes das aldeias amigas dos arredores. Dança-se e bebe-se cauim e o índio que irá ser executado narra os seus feitos guerreiros:

«[…] il dira à l’un, J’ay mangé de ton pere, à l’autre, J’ay assommé et boucané tes freres : bref, adjoustera-il, J’ay en general tant mangé d’hommes et de femme, voire des enfans de vous autres Toüoupinambaoults, lesquel j’ay prins en guerre, que je n’en sçaurois dire le nombre : et au reste, ne doutez pas que pour venger ma mort, les Margajas de la nation dont je suis, n’en mangent encores cy apres autant qu’il en pourront attrapper.»[10]

Léry por se ter debruçado sobre a língua tupi transcreve uma resposta do índio que vai ser morto: «che tan tan, aiouca atoupavé: ou seja, sim, sou muito forte e desferi golpes e comi vários»[11]. Depois do desafio ritual o índio desfere um golpe mortal com uma espada de madeira. A vitima é então escaldada e lavada pelas mulheres como se de um leitão se tratasse e depois cortado bem melhor que se fosse um carniceiro esquartejando uma ovelha. Estas duas comparações, que têm por objectivo fazer perceber para além da relatividade dos costumes uma universalidade dos gestos, acabam por introduzir uma dimensão que Léry tenta noutras ocasiões evitar: o canibalismo é também uma prática alimentar. Mais, logo a seguir, depois das várias partes do corpo terem sido postas a assar, o autor descreve como as velhas índias se deleitavam ao recolher a gordura que escorria e se exclamavam ao chupar os dedos: «Yguatou, isto é, ele é bom»[12]. Todavia este caso extremo é circunscrito às mulheres mais idosas, que no capítulo XVI surgem como autênticas bruxas[13].

Léry como Thevet, refere um bom e um mau canibalismo: desculpando o dos aliados da Baía de Guanabara e condenando o dos inimigos, os Ouetecas mais a Norte. Num estado de primitivismo absoluto e extremamente vorazes, não cozinham a carne, e correm atrás das suas presas como se fossem «cães e lobos». Através desta comparação regressamos ao canibal inventado por Colombo, parente do cinocéfalo. A voracidade desta tribo vai servir de comparação a Léry que, no debate teológico entre católicos e calvinistas sobre a eucaristia, defende o princípio da hóstia representando simbolicamente o corpo de Cristo. Para os calvinistas, se a hóstia fosse efectivamente o corpo de Cristo, os católicos não seriam diferentes dos índios canibais que «à maneira dos selvagens Ouetecas, queriam comer [a carne] crua.»[14]

Para além desta diferença teológica, o relato de Léry acaba por transformar a figura do canibal numa denúncia dos vícios universais que grassam também na França do século XVI. O autor da Viagem dá assim ao fenómeno do canibalismo um significado alegórico de uma crueldade que na Europa reveste formas como a usura e a ausência de caridade.

A partir da terceira edição, Léry opta por cruzar informações coincidentes de autores que trataram da temática do canibalismo, dando assim uma autoridade acrescida à matéria tratada por ele próprio. As relações intertextuais tecidas pela Viagem visam estabelecer a ideia de uma universalidade da violência. Tal fenómeno é manifesto no capítulo XV onde Léry aborda a antropofagia dos índios. Exemplos históricos permitem-lhe conferir e demonstrar que a violência e a barbárie existem desde sempre e em todas as latitudes. Cita os crimes de canibalismo cometidos pelos judeus na época do imperador Trajano (em 115 d.C.), a dureza de Vlad III, soberano romeno, e obviamente, as guerras de Religião em França tais como surgem na Histoire ecclésiastique française de Théodore de Bèze. Além do já referido, a quarta edição da História de uma Viagem vai também evocar as «crueldades dos Espanhóis mais que abomináveis» tais como aparecem descritos pelo padre Bartolomeu de Las Casas.

Depois de introduzir o episódio do tempo de Trajano, conclui o autor que serve este «exemplo para justificar ou, pelo menos, não detestar tanto, os nossos brasileiros»[15]. Da primeira à quinta edição este capítulo quinze vai duplicar a sua extensão, atestando assim que no canibalismo dos índios reside o aspecto mais fascinante e terrivelmente surpreendente de uma alteridade irredutível.

O canibalismo praticado pelos tupinambás acaba por servir de metáfora à usura assimilada à antropofagia, num lugar comum corrente na Idade Média e no Renascimento.

[...] je diray en premier lieu sur ceste matiere, que si on considere à bon escient ce que font nos usuriers (sucçans le sang et la moëlle, et par consequent mangeans tous en vie, tant de vefves, orphelins et autres pauvres personnes auxquels il vaudrait mieux couper la gorge tout d’un coup, que de les faire ainsi languir) qu’on dira qu’ils sont encore plus cruels que les sauvages dont je parle.[16] 

Mas o canibalismo, não como metáfora mas como realidade observada, surge mais adiante quando evocadas as matanças de protestantes na sequência da Noite de São Bartolomeu de 24 de Agosto de 1572:

[...] entre autres actes horribles à raconter, qui se perpetrerent lors par tout le Royaume, la graisse des corps humains (qui d’une façon plus barbare et cruelle que celle des sauvages, furent massacrez dans Lyon, apres estre retirez de la riviere Saone) ne fut pas publiquement vendue au plus offrant et dernier encherisseur ? Les foyes, cœurs et autres parties des corps et quelques-uns ne furent-ils pas mangez par les furieux meurtriers, dont les enfers ont horreur  [...]?[17]

Léry, durante o cerco de Sancerre em 1573, foi também testemunha da terrifica visão de um casal que comera a filha:

Tendo visto os ossos e a cabeça desta pobre rapariga, raspados e roídos, e as orelhas comidas, tendo visto também a língua estufada, da espessura de um dedo, que estavam prestes a comer quando foram surpreendidos: as duas coxas, pernas e pés dentro de um caldeirão com vinagre, especiarias e sal, prontas para serem cozidas e cozinhadas, os ombros, braços e mãos juntos, com o peito esquartejado e aberto, preparados para serem comidos, fiquei tão atemorizado e desnorteado, que todo o meu ser ficou comovido.[18]

Esta forma da canibalismo alimentar, tanto mais praticado por cristãos, é absolutamente condenado ao invés de um canibalismo vingador que merece menor repúdio e que constitui, inclusive, um topos literário na Idade Média. Exemplo disso o Lai d’Ignauré, do séc. XIII, onde o amante de doze mulheres adulterinas é servido como manjar às esposas pelos maridos. A vingança amorosa está igualmente presente no Roman de Coucy et de la dame de Fayel onde o marido serve à mulher o coração do amante morto durante as cruzadas.

Uma adenda ao capítulo quinze terá um lugar autónomo a partir da quarta edição. O título revela o teor do seu conteúdo: «Des cruautez exercées par les Turcs, et autres peuples: et nommément par les Espagnols, beaucoup plus barbares que les Sauvages mesmes».

A conclusão do capítulo quinze é sobejamente esclarecedora da relativização do fenómeno antropofágico. Léry pede ao leitor que deixe de odiar a crueldade dos «selvagens antropófagos» visto existir bem pior na França da época onde se derrama o sangue de parentes, vizinhos e compatriotas enquanto que os índios só o fazem dos inimigos.

No capítulo treze, Léry relata uma conversa que terá tido com um velho índio cuja sabedoria primitiva o leva a questionar os costumes dos franceses. A conclusão de Léry anuncia, de certo modo, as próprias interrogações do ensaio de Montaigne:

[…] ceste nation, que nous estimons tant barbare, se moque de bonne grace de ceux qui au danger de leur vie passent la mer pour aller querir du Bresil  à fin de s’enrichir.

Observação que nos levará naturalmente a falar na figura de Michel de Montaigne.

 

Michel de Montaigne

Se Colombo criou a figura do índio canibal, Montaigne conferiu-lhe dignidade[19] ou melhor dizendo, legitimidade.

Foi em 1562 aquando de uma festa em honra do jovem rei Carlos IX e de Catarina de Médicis, organizada em Ruão depois da conquista da cidade aos protestantes e seu saque, que Montaigne teve o seu primeiro e único contacto com os índios do Brasil. Três séculos mais tarde, na sua correspondência, Flaubert relembra o encontro do ensaísta francês.

J'ai pu dire comme Montaigne: "Mais je fus bien empesché par la bêtise de mon interprète", lorsqu'il voyait, lui aussi, et à Rouen, des Brésiliens, lors du sacre de Charles IX.[20]

A antropofagia, mergulhando em mitos essenciais da civilização ocidental, encontra-se culturalmente, apesar do tabu de que se reveste e da brutalidade, assimilada, como já vimos. Por isso o discurso relativista de Montaigne vai não legitimar a sua prática, o que seria obviamente absurdo[21], mas criar uma compreensão por parte do leitor ao evocar precedentes ilustres, no início do ensaio. Assim, começa por falar do rei Pyrrhus surpreendido pela ordem do exército romano que não obedecia ao preconceito que tinha em ralação à estratégia militar dos bárbaros. Este episódio permite a Montaigne relativizar o conceito de «bárbaro» ao lembrar a etimologia: «os Gregos chamavam assim todas as nações estrangeiras»[22]. Adiante argumenta que para ele não há nada de bárbaro e selvagem entre a nação índia segundo o que pôde constatar. Habitualmente chama-se bárbaro o que é diferente dos seus próprios costumes. Para Montaigne, os índios são selvagens da mesma forma que o é a fruta que a natureza produziu sem ajuda do homem. Os índios são por isso ainda dotados de uma inocência e pureza primitivas e comandados pelas leis naturais. Assim sendo os índios desconhecem todos os males que afectam a sociedade francesa: «a mentira, a traição, a dissimulação, a avareza, a inveja, a maledicência»[23], estando próximos, deste modo, da república imaginada por Platão.

Sem escamotear a realidade que dá nome ao ensaio, Montaigne reafirma depois de Thevet e Léry que não é uma preocupação alimentar que motiva a execução dos inimigos mas, segundo o que ele próprio diz para «representar uma extrema vingança»[24]. Como Léry, o ensaísta tem em mente os horrores das guerras de Religião quando compara a prática canibal dos índios com a crueldade exercida pelos franceses sobre os seus próprios concidadãos.

Je pense qu’il y a plus de barbarie à manger un homme vivant qu’à le manger mort, à deschirer par tourments et par geénes un corps encore plein de sentiment, le faire rostir par le menu, le faire mordre et meurtir aux chiens et pourceaux (comme nous l’avons non seulement leu, mais veu de fresche memoire, non entre des ennemis anciens, mais entre des voisins et concitoyens, et, qui pis est, sous pretexte de pieté et de religion), que de le rostir et manger après qu’il est trespassé.[25]

O modus vivendi dos índios surge por contraste mais como uma crítica aos próprios franceses que uma descrição fiel da realidade. Por detrás do horror que podia inspirar o título do ensaio de Montaigne, paradoxalmente surge um elogio de um povo que vivia sem artifícios e obedecendo as leis da Natureza.

O índio canibal em romances contemporâneos franceses

Le valet d’aventure de Gilbert Pastor

Gilbert Pastor publica em 1990 um romance histórico baseado nos relatos de Thevet e Léry. Romance onde a instância narrativa representa o «eu» de um narrador personagem, Fabien Clément que conta como aos dezasseis anos, em 5 de Março de 1557, foi contratado para acompanhar um nobre protestante, Jean de Vire, ao Brasil. Vire é um misto de Thevet, pela experiência e cargo de cosmógrafo do Rei, e de Léry por ter aderido à reforma calvinista. Fabien Clément foi por ele escolhido não só por se ter revelado bom aluno no colégio mas sobretudo devido à sua juventude que supostamente lhe permitiria aprender as línguas dos índios. A acção do romance decorre durante a segunda expedição que levou nomeadamente as primeiras mulheres franceses ao Brasil: raparigas solteiras que iriam desposar colonos já instalados.

O primeiro contacto das personagens com o canibalismo faz-se através do relato de um intérprete normando que afirma que as guerras entre tribos não têm senão como fim obterem prisioneiros que depois de engordados serão comidos[26]. Nesta visão a antropofagia é unicamente um acto alimentar horrendo. Adiante no romance, Fabien Clément que presenceia o trato feito a margayas capturados pelos aliados tupinambás considera que tal é indiscritível, frustrando assim o próprio leitor: «Ce qui suivit alors n’est pas digne d’être raconté par un chrétien.»[27]. No capítulo onze, numa alínea de um enunciado descritivo designado por «partie apocryphe», conduzido na terceira pessoa e estabelecendo assim uma distância com o narrado, é indicado como é desfumada a carne dos inimigos[28]. Seguidamente o leitor descobre como os cativos, que nada parece distinguir dos seus vencedores, são bem tratados até a sua execução. O relato recupera então o carácter etnográfico das crónicas de Thevet e Léry. Fabien Clément no mesmo capítulo conta uma conversa tida com um intérprete normando que depois de comparar os absurdos de costumes índios com os franceses, explica que o que motiva as guerras entre tupinambás e margayas é o sentimento de vingança[29]. Durante uma assembleia dos franceses, no capítulo treze, um protestante compara, praticamente nos mesmos termos em que o fizera Léry, a antropofagia dos índios a uma barbárie tão grave como a teofagia dos católicos[30].

Rouge Brésil de Jean-Christophe Ruffin

Cerca de dez anos depois de Pastor, Rufin aborda o mesmo tema, introduzindo duas personagens da sua lavra, Just e Colombe que, como o Clément de Pastor, integram a expedição para poderem aprender a língua dos tupinambás. Mas Rufin, ao invés do seu predecessor, prefere acompanhar a aventura da França Antárctica logo no seu começo em 1555 para dar a conhecer na totalidade um episódio da História pouco conhecido do público francês. O autor segue linearmente o périplo da expedição, o romance acabando com a derrota dos franceses pela armada comandada por Mem de Sá e o regresso de Villegagnon que a antecedera em pouco. 

O escritor logo numa citação em epígrafe - o início do segundo parágrafo do ensaio Dos canibais de Montaigne - revela uma das suas fontes inspiradores. No final, num apêndice de cinco páginas, evoca como surgiu ao visitar a Baía do Rio do Janeiro a ideia de Rouge Brésil. Fala Ainda detalhadamente da documentação utilizada e da bibliografia o que dá uma autoridade acrescida a matéria narrada no romance.

O título da primeira parte indica de forma algo provocatória o que será o teor do romance: «Des enfants pour les cannibales».

Horizonte de expectativa que será reforçado pelo próprio incipit que inscreve a narração debaixo do signo do canibalismo quando, na primeira frase, um marinheiro acusa de antropofagia um índio radicado na cidade de Ruão e que participara na festa oferecida em honra de Henrique II. Contrariamente a Gilbert Pastor que praticamente só utilizara como personagem real a figura de Villegagnon, não podendo omiti-la, Rufin faz evoluir sob o olhar do leitor um André Thevet péssimo cosmógrafo, mas talentoso fraseador que corresponde à imagem que nos deixou dele os seus inimigos e, em particular Léry. Assim, no capítulo dez, Rufin diz-nos do cosmógrafo que, confrontado com a sua imperícia, argumenta falaciosamente: «Era necessária toda a habilidade de Thevet para disfarçar um erro humano em miopia divina.»[31]  Na parte final é igualmente evocada a figura de Jean de Léry que depois da expulsão dos protestantes da ilha de Villegagnon, percorre as aldeias da floresta e aprende elementos da língua Tupi (p. 477).

Depois de desembarcados na ilha da baía de Guanabara, ao avistarem pela primeira vez os índios, as vigias gritam para avisar os franceses: «Os canibais! Os canibais!» (p. 169). O narrador, três parágrafos adiante, explica esse grito como a tradução do fantasmático canibal que tinha impregnado as mentes durante a viagem e povoado os sonhos da primeira noite no Brasil[32]. Informações fragmentadas vão progressivamente constituir um quadro dos costumes canibais dos índios que poupam os aliados franceses (p. 176), devoram os portugueses (p. 179) ou os índios de tribos inimigas, depois de um longo cativeiro (p. 220). Como no romance precedente as diferenças religiosas se traduzem nomeadamente na acusação teófaga lançada pelos seguidores da Reforma. Assim, um protestante da nobreza, perante Villegagnon que reclama a hóstia, trata-o de «canibal» (p. 404).

A hipótese de um canibalismo alimentar é rejeitada na última parte do romance por um velho sábio francês, Pay-Lo, nome índio de Laurent, que decidiu viver entre os indígenas (p. 430) e que chegou com normandes antes mesmo de Cabral. A antropofagia serve somente para assimilar a força do inimigo. Pay-lo descreve então o ritual de execução com as ameaças de vingança proferidas pela vitima (p. 431).

Contrariamente aos relatos e ensaios quinhentistas que insistem sobre o carácter vingador do canibalismo índio para o tornar aceitável e que, ao mesmo tempo, aproveitam para tecer críticas à França das guerras de religião, os romances contemporâneos abordam unicamente esta realidade en passant.

Conclusão

Enquanto o canibalismo é considerado como a manifestação de uma vingança e participa de um código de honra, o canibal é temido e respeitado, mas a partir do momento em que a antropofagia deixa de ser uma prática ritualizada para se tornar um simples acto alimentar, o discurso legitimador fica esvaziado de substância. O índio reduzido a um ser selvagem e de bestial apetite vai permitir a emergência de outro discurso legitimador, o do colonialismo que vê na antropofagia a prova evidente e definitiva que convém reduzir e subjugar populações que tão pouco têm de humano.

 

 

Notas

[1] «Je foule l’Avenida Rio-Branco où s’élevaient jadis les villages tupinamba, mais j’ai dans ma poche Jean de Léry, bréviaire de l’ethnologue.» in Claude Lévi Strauss, Tristes tropiques, Paris, Plon, coll. Terre humaine, 1955, p.89.

[2] «L’histoire prend alors un tour si étrange que je m’étonne que nul romancier ou scénariste ne s’en soit encore emparé. Quel film elle ferait !» in Claude Lévi Strauss, op. cit., p.92.

[3] «Entretien avec Claude Lévi-Strauss», in Jean de Léry, Histoire d’un voyage faict en la terre du Bresil (1578), [baseada na] 2e ed., 1580, Texte établi, présenté et annoté par Frank Lestringant, Paris, Le Livre de Poche, 1994, 670 p., p.13.

[4] Trad. de «Nous sommes vaillants (disent-ils), nous avons mangé vos parents, aussi vous mangerons-nous» in Le Brésil d’André Thevet, Les Singularités de la France Antarctique (1557), éd. Intégrale établie, présentée et annotée par Frank Lestringant, Paris, Ed. Chandeigne, 1997, 445 p., p.157.

[5] Trad. de «La plus grande vengeance dont les sauvages usent, et qui leur semble la plus cruelle et indigne, est de manger leurs ennemis.» in André Thevet, op. cit., p.158.

[6] André Thevet, op. cit., p.159.

[7] André Thevet, op. cit., p.161.

[8] «Joinct que par ce moyen ce sera à vous auquel Thevet aura non seulement à respondre, de ce qu’en general, et autant qu’il a peu, il a condamné et calomnié la cause pour laquelle nous fisme ce voyage en l’Amerique […]» in Jean de Léry, Histoire d’un voyage faict en la terre du Bresil (1578), 2e ed., 1580, Texte établi, présenté et annoté par Frank Lestringant, Paris, Le Livre de Poche, 1994, 670 p., p.49.

[9] «[...] ce livre des Singularitez est singulierement farci de mensonges, si l’autheur toutesfois, sans passer plus avant, se fust contenté de cela, possible eussé-je encores maintenant le tout supprimé. / Mais quant en ceste année 1577, lisant la Cosmographie de Thevet, j’ay veu que il n’a pas seulement renouvelé et augmenté ses premiers erreurs, mais, qui plus est (estimant possible que nous fussions tous morts, ou si quelqu’un restoit en vie, qu’il ne luy oseroit contredire), sans autre occasion, que l’envie qu’il a euë de mesdire et détracter des Ministres, et par consequent de ceux qui en l’an 1556, les accompagnerent pour aller trouver Villegagnon en la terre du Bresil, dont j’estois du nombre, avec des digressions fausses, piquantes, et injurieuses, nous a imposé des crimes ; à la fin, di-je, de repousser ces impostures de Thevet, j’ay esté comme contraint de mettre en lumiere tout le discours de nostre voyage.» in Jean de Léry, op. cit., p.63.

[10] Jean de Léry, op. cit., p. 356.

[11] «c’est à dire, Ouy, je suis tres fort et en ay voirement assommé et mangé plusieur.» in Jean de Léry, op. cit., p.357.

[12] Jean de Léry, op. cit., p.364.

[13] «Non pas cependant, ainsi qu’on pourroit estimer, qu’ils facent cela ayant esgard à la nourriture : car combien que tous confesseent ceste chair humaine estre merveilleusement bonne et delicate, tant y a neantmoins, que plus par vengeance, que pour le goust (hormis ce que j’ay dit particulierement des vieilles femmes qui en sont si friandes), leur principale intention est, qu’en poursuyvant et rongeant ainsi les morts jusques aux os, ils donnent par ce moyen crainte et espouvantement aux vivans.» in Jean de Léry, op. cit., p.366.

[14] « […] ils vouloyent neantmoins non seulement grossierement, plustost que spirituellement, manger la chair de Jesus Christ, mais qui pis estoit, à la maniere des sauvages nommez Ou-ëtacas, dont j’ay parlé ci-devant, ils la vouloyent mascher et avaler toute crue.» in Jean de Léry, op. cit., p.176-177.

[15] Toutesfois ce que nous lisons avoir esté commis par les Juifs (qui par la défense que Dieu leur faisoit en sa loi de manger sang, devoyent, sur tous autres peuples, estre instruits à humanité) est encor plus prodigieux. Car, comme les histoires tesmoignent, ceste nation, de tout temps adonnée à tumulte, souz l’Empereur Trajan esmeut des seditions si horribles, qu’après avoir massacré quarante mille hommes, en Egypte, Cyrene et Cypre, leur barbarie fut telle, que non seulement ils mangerent la chair des occis, mais aussi de leur sang ils se peignirent le visage : voire en fendirent aucuns par le milieu du corps jusques au sommet de la teste, et se couvrans de leurs peaux cheminoyent en tel habit, avec une contenance du tout barbare et furieuse. Voilà donc desja un exemple pour justifier ou, du moins, ne pas abbhorrer, nos Bresiliens […].» in Jean de Léry, op. cit., p.363.

[16] Jean de Léry, op. cit., p.375.

[17] Jean de Léry, op. cit., p.376.

[18] Trad. nossa de Jean de Léry, Histoire mémorable de la ville de Sancerre, 1574.

[19] «C’est lui le tisserand fait amiral de Castille qui a inventé le Cannibale, et c’est Montaigne qui l’a anobli. ». Prefacio de Pierre Chaunu in  Frank Lestrigant, Le Cannibale, Grandeur et décadence, Paris, Librairie Académique Perrin, 1994, p 15. A palavra provém efectivamente do castelhano que a faz derivar do vocábulo de origem arawak (aravaque), «carib» e por deformação lexical «caniba», que designa índios Caraíbas das Antilhas e a assimila provavelmente ao fabulosos cinocéfalo, criatura da mitologia, homem com cabeça de cão, de que fala Plínio.

[20] Carta a Louis Bouilhet (Croisset, Dez. 1853, entre 15 e  27).

[21] Teremos que aguardar pela cruel ironia do irlandês J. Swift e a sua Modesta proposta para aparentemente e num primeiro grau de leitura considerar legitima a antropofagia não como acto associado a um ritual mas sim como prática alimentar.

[22] Michel de Montaigne, op. cit., p.251.

[23] Michel de Montaigne, op. cit., p.255.

[24] Michel de Montaigne, op. cit., p.258.

[25] Michel de Montaigne, op. cit., p.258.

[26] Gilbert Pastor, Le valet d’aventure, Paris, Editions Balland, 1990, p.70-71.

[27] Gilbert Pastor, op. cit., p.106.

[28] «Toutes les rives du village tupi étaient encombrées de grandes claies élevées sous lesquelles des braises permanentes rougeoyaient même en plein jour. Les Indiens surveillaient avec intérêt cette installation car sur ces claies posées à même le treillage de roseaux, les morceaux soigneusement découpés de leurs ennemis cuisaient sous la fumée des heures durant.» in Gilbert Pastor, op. cit., p.125.

[29] «Même sous les insultes, le prisonnier ne se rebiffait pas. A une heure tout au plus de sa mort, il narguait ses tourmenteurs en se vantant de ce qu’il avait fait autrefois. Il jurait ses grands dieux que s’il l’avait pu, il en aurait fait davantage et que de toute façon, il serait vengé par ses frères qui ne tarderaient pas à manger à leur tour tous ceux, femmes et enfants compris, qui s’apprêtaient maintenant à le mettre à mort.» in Gilbert Pastor, op. cit., p.129.

[30] «Et l’on parle de barbarie quand ils se mangent entre eux! Déclara hautement un réformé. Que dire alors des papistes qui prétendent à chaque office se nourrir de la chair du Christ ? Abolissons d’abord ce scandale qui insulte nos rangs et après nous conviendrons de ce qu’il faut penser des sauvages.» in Gilbert Pastor, op. cit., p.155.

[31] «Il fallait toute l’habileté de Thevet pour travestir une erreur humaine en myopie divine.» in Jean-Christophe Rufin, op. cit., p.126.

[32] «La monstruosité cannibale avait rôdé, immense, dans plus d’une tête pendant cette première nuit sur les terres anthropophages.» in Jean-Christophe Rufin, ibid.

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