Utilize este identificador para referenciar este registo: http://hdl.handle.net/10400.2/3162
Título: O que não ficou por dizer...Ruy Duarte de Carvalho In memoriam
Autor: Vidal, Nuno
Palavras-chave: Angola
Política
Sociologia
Data: Jan-2011
Editora: Nuno Vidal & Associação Cultural Chá de Caxinde
Resumo: Nesta homenagem que a Associação Cultural Chá de Caxinde faz ao Ruy Duarte de Carvalho selecionámos uma entrevista, três ensaios e uma palestra, para além de uma auto-biografia com que iniciamos a obra. Alguns destes trabalhos são inéditos, sendo o caso da entrevista que nos concedeu em Junho de 1998, nunca antes publicada, ou a sua última palestra pública proferida em Março de 2010 em Luanda, poucos meses antes de nos deixar, que é aqui transcrita e publicada pela primeira vez. Ou ainda aquele que será um dos seus últimos ensaios, senão mesmo o último, “Da Angola Diversa”, redigido em 2009, produzido para um projecto do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, até agora desconhecido do grande público. A estas intervenções e trabalhos inéditos juntámos mais dois ensaios que aqui são reeditados, Figuras, figurões e figurantes na cena democrática angolana, produzido em 2004 e Tempo de ouvir o ‘outro’ enquanto o “outro” existe, antes que haja só o outro...ou pré - manifesto neo-animista, elaborado em 2008. O título escolhido para esta obra refere-se essencialmente a estes textos e intervenções inéditas, embora obviamente exista muitíssimo que ficou por dizer. Um intelectual e escritor da dimensão do Ruy Duarte de Carvalho, à medida que o tempo passa, tem sempre e cada vez mais coisas interessantes para dizer, deixou-nos cedo demais. As suas últimas intervenções e trabalhos denotam exactamente o muito que ainda nos tinha para dizer e contar, estando envolvido em vários projectos, como poderemos constatar nos textos desta obra. Compreendendo um período de doze anos, que se estende de 1998 a 2010, os trabalhos aqui publicados, inéditos ou reedições, estão organizados de forma cronológica (exceptuando a autobiografia com que iniciamos o livro) revelando uma enorme coerência, sequência e desenvolvimento do pensamento de Ruy Duarte de Carvalho, complementando-se em diversos aspectos e discutindo temas que a todos são transversais. Encontramos na entrevista de 1998 todas as grandes temáticas que serão desenvolvidas nos ensaios e mesmo na sua palestra final, como seja a questão das identidades sociais, a nação, os movimentos migratórios históricos (a que na entrevista chama de “transumâncias” de vária ordem), a necessidade de compreender o sistema político tendo em conta aspectos antropológicos e sociológicos, a transição do período colonial para o pós-colonial na sua relação com a formação das elites e o exercício do poder por parte destas, a construção da democracia ou o tipo de democracia efectivamente existente, a diversidade cultural e os modelos de organização política. Acima de tudo, encontramos neste conjunto de trabalhos uma faceta do Ruy Duarte de Carvalho nem sempre referida ou assumida pelos analistas da sua obra, que consiste na sua postura enquanto “intelectual activista” de causas que considerava social, económica e politicamente justas e que se resumem, de forma simples, a contribuir para pensar soluções que tragam uma vida melhor para todos os angolanos, africanos e humanidade em geral Eu sou absolutamente advogado e militante – se ainda me preservo algum espírito de militância – em relação ao facto de que todos os conhecimentos devem ocorrer para ver se damos um jeito ao exercício de estar vivo, ao exercício de viver em sociedade e ao exercício de, enfim, podermos conduzir a vida das pessoas a situações que não sejam tão catastróficas como aquelas que nós vivemos. Este traço da obra do Ruy Duarte de Carvalho é em nosso entender um distintivo da maior importância para se compreender a força das suas análises e o sentido, a lógica, a consequência e a convicção com que as desenvolve. Nestes trabalhos, e em tantos outros que produziu, Ruy Duarte de Carvalho demonstra regularmente uma preocupação em analisar, reflectir, compreender e criar, não como um mero exercício académico ou artístico, mas sobretudo para fundamentar a acção, ......o que eu proponho é bem simples e ao alcance de interessados e de profissionais susceptíveis de ser congregados à volta de questões desta natureza............. não é ter um caminho a propor....... é antes ter algumas ideias para uma eventual hipótese de poder vir a ajudar a encontrar maneira de achar um caminho...... . Foi por reconhecermos e valorizarmos esta faceta do Ruy Duarte de Carvalho, que tanto eu como o Justino Pinto de Andrade desde o início e por diversas vezes o convidámos a participar no projecto que coordenamos há anos entre a Universidade de Coimbra e a Universidade Católica de Angola, um projecto de pesquisa-acção sobre Democracia e desenvolvimento em Angola e na África Austral. Dois dos trabalhos que aqui se apresentam, o primeiro ensaio e a palestra final, resultam desta participação. O ensaio foi apresentado em Agosto de 2004 na conferência internacional dedicada ao “Processo de transição para o multipartidarismo em Angola”, publicado em 2006 numa obra com o mesmo título, reeditada em 2007 e 2008, contendo uma análise e uma mensagem de enorme actualidade e importância para um processo de democratização por concretizar em variadíssimos campos, (…) se é mesmo para mudar alguma coisa e queremos mesmo sair da situação em que estamos, o que talvez tenhamos de fazer, (…) é: identificar sem ambiguidades nem eufemismos os nossos problemas e os nossos défices efectivos de maneira a podermos estabelecer linhas de acção e programas; considerar como absolutamente prioritário a resolução daquilo que importaria resolver fosse qual fosse o modelo político em presença. Ainda há em Angola gente a sobreviver, ou não, em muito más condições e abundam os terrenos em que a mais desmunida argúcia política reconhecerá alguns dos nossos maiores défices: estado, administração, fome, pobreza, saúde, cultura, educação. Duas grandes ideias de força se vão afirmando e articulando ao longo destes trabalhos e assumem um carácter muito central no pensamento do Ruy Duarte de Carvalho no fim da sua vida, o “convocacionismo” e o neo-animismo, expressas na sua última palestra, de Março de 2010, Advoguei (…) o que eu chamo de “convocacionismo”, que é convocar todas as ordens do conhecimento no tempo e em todas as áreas. Continuo a achar que é um prejuízo enorme não se ter em conta as formas políticas dos poderes africanos pré-coloniais, da política tradicional, para serem introduzidas nesta configuração que pretendemos democrática. Acho que o conhecimento que as artes transportam deve concorrer com o conhecimento que as investigações concorrem e que as filosofias concorrem, para ver se encontramos soluções, e a isso fui chamando convocacionismo. Ao recurso ao conhecimento africano pré-colonial eu chamo de neo-animismo (…). …e igualmente manifestas no seu último ensaio, de 2009, onde reforça estas ideias e termina advogando-as não só para África, mas para o enriquecimento dos modelos e governação e da humanidade em geral, .... olha que pode ser um património valioso..... mais valioso até do que a instrumentalização comercial e política, ou político-cultural, ou político-turística, da diferença, da diversidade cultural........ a minha proposta é simples : inventariação, recolha ou recuperação, em todo o mundo, de saberes endógenos, 'indígenas, de 'atrasados', integráveis num futuro diferente e a favor dele..... Terminamos referindo que em todos estes textos o leitor irá encontrar as características de sempre do Ruy Duarte de Carvalho, que tanto admiramos e homenageamos, um intelectual preocupado em perceber as forças e dinâmicas de longa duração estruturantes da realidade social, para daí retirar ensinamentos que informem a escrita argumentativa e expositiva e igualmente a acção público-política, um escritor que mistura soberbamente os diversos estilos literários, esbatendo as fronteiras entre eles, um antropólogo de raiz com um sólido e vasto percurso de trabalho de campo junto de vários sectores das populações da capital, assim como de populações rurais do planalto central e de pastores e agro-pastores do sudoeste, sem deixar esquecido o seu lado de cineasta na forma como em diversos momentos apreende e transmite uma perspectiva cénica das realidades que analisa, (…) ninguém negará que na cena angolana e no tempo, nas situações e nos actos em que participamos e a que assistimos, há necessariamente estrelas, figuras principais, secundárias e simples figurantes, e papéis e partes, marcações de cena, movimentações e desempenhos, como no teatro, no cinema e nas novelas da televisão. Este livro encerra com uma bibliografia e filmografia do Ruy Duarte de Carvalho, organizada pela jornalista Marta Lança e que ainda foi revista pelo próprio Ruy. Nuno Vidal 20 de Novembro de 2010
Peer review: yes
URI: http://hdl.handle.net/10400.2/3162
ISBN: 978-989-96447-1-7
Versão do Editor: http://www.angola-shop.com/Associacao-Cha-de-Caxinde-O-que-nao-Ficou-por-Dizer/pt
Aparece nas colecções:Direito e Ciência Política - Livros / Books

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