Utilize este identificador para referenciar este registo: http://hdl.handle.net/10400.2/2470
Título: O mercador de palavras ou as encruzilhadas da escrita medieval : (1100-1270)
Autor: Carreto, Carlos F. Clamote
Orientador: Godinho, Helder
Marques, Maria Emília Ricardo
Palavras-chave: Literatura francesa
Século XII
História
Sociedade
Cidade
Cultura francesa
Poética
Mercadores
Romance
Mentalidade
Signos
Teoria da literatura
Medieval French Literature (12th-13th centuries)
Merchants in medieval literature
Medieval culture and civilization
History and literary criticism
Theory(ies) of literature (Rhetoric, Poetics, Theory of Genre)
Literature and economy
Language and imaginary
Data de Defesa: 2003
Citação: Carreto, Carlos F. Clamote - O mercador de palavras ou as encruzilhadas da escrita medieval [Em linha] : (1100-1270). [Lisboa] : [s.n.], 2003. 3 vol.
Resumo: O século XII francês caracteriza-se por múltiplas transformações (políticas, sociais, económicas, jurídicas, ideológicas, culturais) que redefinem, lenta mas profundamente, os contornos da civilização medieval. Ora, uma das mutações mais decisivas (senão a mais decisiva e marcante) reside justamente na passagem, que perscrutamos atentamente a partir dos múltiplos discursos que in-formam o texto poético, de uma economia oblativa, intimamente ligada ao pensamento simbólico, para uma economia mercantil e monetária, subordinada ao imaginário do signo. Será por mero acaso se vemos nascer e desenvolver-se, neste preciso contexto, a narrativa ficcional em língua vernacular (em romance)? Ou será uma mesma viragem epistemológica que dá simultaneamente origem à notável monetarização (aos mais diversos níveis) das relações sociais, ao renascimento da vitalidade urbana (factores através dos quais tendem a dissolver-se os laços, extremamente fortes e ritualizados, que uniam os homens uns aos outros na sociedade feudal), ao desabrochar do pensamento escolástico e das Ordens Mendicantes, à irrupção das catedrais góticas e à emergência de uma literatura profana que reivindica, pouco a pouco, a sua autonomia perante os sistemas poéticos latinos ou neolatinos? Surgia assim uma rede coerente de possíveis analogias na qual se vislumbrava a estranha e singular geminalidade entre a imagem ambígua do mercador (modelo da fertilidade e comunicação restauradas sobre o qual plana, todavia, e inelutavelmente, o espectro da usura, da avareza, da fraude, da mentira e da falsificação diabólicas) e a não menos ambígua figura do poeta, esse demiurgo que se compraz no jogo, ao mesmo tempo lúdico e subversivo, dos simulacros da Palavra, da Criação e da Verdade. Sobre ambos, pesa o anátema da danação; ambos aspiram, no limiares de uma espécie de Purgatório da linguagem, à plena legitimação dos respectivos discursos. Numa altura em que começam a desagregar-se os valores constitutivos do feudalismo, em que a relação com um Significado fundador, referencial, se torna cada vez mais longínqua e irrecuperável, a ficção e a moeda cunhada emergem assim como dois novos tipos de mediação ante o objecto de desejo, como duas formas de escrita (homólogas, embora distintas e autónomas) que modificam as relações com o Outro e com o mundo (e com o Outro-Mundo inclusive), tanto quanto as suas respectivas representações, e através das quais se elaboram, em suma, novos processos de simbolização. A dualidade e duplicidade que se instauram entre estes dois modos privilegiados de representação (mental e socialmente construída) não podia deixar de ter influências na própria concepção da palavra poética. Com efeito, a forma como dialogam, se entrelaçam, colidem ou se excluem mutuamente imaginário oblativo (bem patente no ideal cavaleiresco e cortês de liberalidade, por exemplo) e imaginário mercantil, abre-nos um terreno de investigação único para observarmos o modo como os dois principais géneros narrativos em verso dos séculos XII-XIII (a canção de gesta e o romance que analisamos mais minuciosamente), reflectem e/ou inflectem o universo que os rodeia e, nesse processo, verificar de que forma se interrogam sobre o seu próprio estatuto e se posicionam um face ao outro através de secretas ou explícitas relações dialógicas e intertextuais. Se, nesta perspectiva, vemos o discurso épico dar, frequentemente, corpo e voz ao inconsciente ideológico e textual recalcado nos inúmeros inter-ditos, ou não-ditos, que estruturam o imaginário romanesco (e vice versa), evidenciando simultaneamente as potencialidades e os limites de uma determinada concepção da linguagem poética e da visão do mundo que (a) sustenta e veicula, caberá à chamada narrativa "realista" do século XIII levar este processo de reflexão (no sentido cognitivo e especular do termo) às últimas consequências. Com efeito, ao multiplicar falaciosamente os "efeitos de real" e as referências ao universo económico, esta narrativa sugere que a única realidade da/na literatura consiste, na verdade, no facto de ser uma arte, subtil e engenhosamente, tecida através de uma temível e sedutora manipulação da retórica da linguagem e das formas significantes nas quais se espelha incessantemente. Desta nova economia poética, emerge uma (in)suspeita, mas agora triunfal e triunfante, relação entre o poeta e o mercador de palavras, entre a usura e a narrativa ficcional enquanto infinita reprodução de simulacros e perpétua deslocação metafórica de uma significação ao mesmo tempo proliferante e sempre ausente; relação na qual se vislumbra a natureza paradoxal, evanescente e profundamente enganadora, do texto medieval como eterna falsa moeda sígnica e semântica.
The twelfth century is a complex period, characterised by an unusual quantity of transformations at all levels (political, social, economic, juridical, ideological and cultural) which would, slowly but profoundly, redefine the contours of Western Civilization. One of the most decisive mutations (if not the most decisive and impactive one) lies in the transition, deeply analysed by us through the several discourses which in-form the poetical text, from the so-called gift economy, closely related to the symbolic though, to a monetary mercantile economy, subordinated to the sign imaginary. Can it be mere chance if we can also find, precisely during that period and context, the beginning and development of the written fictional narrative in vernacular language, (the romance)? Or is it not rather the same epistemological turnover which originates, simultaneously, the remarkable monetarization of social relationships, the rebirth of urban vitality (the towns being the set for an important progressive weakening of the strong and ritualised personal bonds which maintained the cohesion of the traditional feudal society), the flourishing of scholastic thought and Mendicant Orders, the irruption of Cathedral churches and the emergence of profane Literature which slowly takes its autonomous place among the latin and neolatin poetic systems? Faced with this vast net of possible analogies, we were forced to recognise the strange and singular similarity and closeness between the ambiguous image of the merchant (a model of restored fertility and communication, upon whom, nevertheless, always planes the spectre of usury, greed, fraud, lie and devilish forgery) and the none the less ambiguous one of the poet, the demiurge who indulges himself permanently in the vain, ludic and subversive gamble of playing with the Word, the Creation and the Truth. The anathema of damnation stands upon both of them; they both aspire - at the verge of a sort of Purgatory of the Language – to the universal recognition of the legitimacy of their respective discourses. In an era in which the feudal values were starting to dissolve, and the relation to a founding Signified, source of every reference, becomes more and more distant and irrecoverable, the fiction and the minted coin emerge as the two new models for mediation in the face of the object of desire, as two forms of writing (similar although very distinct and autonomous), which drastically modify the relation to the Other and to the World (and to the Other World, as well), just as their respective representations, thus creating a whole new process of simbolization. The duality and duplicity which pervade these two privileged forms of representation (mentally and socially constructed) would forcibly end up behaving serious reflections in the poetic word. In fact, the forms through which the oblative imaginary (in the centre of the chivalric and courtly code of honour) communicates, intermixes, collides or opposes the mercantile imaginary, opens a unique field of research which enables us to observe the way in which the two main versified narrative genres in the twelfth-thirteenth centuries (the chanson the geste and the romance being the ones here under scrutiny) reflect and/ or inflect the universe surrounding them. And, in the course of that same process, to verify the ways in which they position themselves facing one another, through secret or explicit dialogic and intertextual relations. If, under this perspective, we frequently see the epic discourse as voicing and embodying the ideological and textual unconsciousness of the repressed inumerous inter-dicts or non verbalised (unsaid) concepts which shape the romance imaginary (and vice versa), thus enlightening the potentialities and the limits of a certain conception of poetic language and of the respective world vision which feds it and promoted it, it will be the "realistic" narrative of the thirteenth-century to take this process of reflection to its last consequences. By fictively multiplying the "reality effects" and the references to the economic universe, this narrative suggests that the only reality of/ in Literature consists, basically, in the fact that it is an art, subtle and ingeniously, woven through a frightening and seductive rhetoric manipulation of the language and the signifier forms in which it is unceasingly mirrored. From this new poetic economy comes an unsuspected but now triumphal and triumphant relation between the poet and the merchant of words, between usury and fictional narrative. An infinite reproduction of fictiveness and a perpetual metaphoric dislocation of a meaning which is simultaneously proliferating and absent. A relation in which we can envisage the paradoxical, evanescent and profoundly deceiving nature of the medieval text as an eternal false coin of sign and meaning.
Le XIIe siècle est incontestablement une période bigarrée dont les contours multiformes traduisent les diverses transformations (sur le plan politique, social, économique, juridique, culturel ou idéologique) qui redessinent, lentement mais en profondeur, les traits de la civilisation médiévale. Or, une des plus marquante, sinon la plus marquante et décisive, de ces mutations réside justement dans le passage, que nous observons attentivement en nous appuyant sur les nombreux discours qui in-forment le texte poétique, d'une économie du don, intimement liée à la pensée symbolique, à une économie monétaire et marchande subordonnée à l'imaginaire du signe. Est-ce, dès lors, une simple coïncidence si nous voyons immerger et se développer, dans ce contexte, une foisonnante littérature écrite en langue vernaculaire (le roman)? Ou est-ce un même tournant épistémologique qui ouvre simultanément les portes à une remarquable (sous tous les points de vue) monétarisation des rapports sociaux, au renouveau de la vitalité urbaine (la ville étant l'espace où se distendent désormais les liens, extrêmement forts et ritualisés, qui unissaient les hommes au cœur de la société féodale traditionnelle), à l'éclosion de la pensée scolastique et à la multiplication des Ordres Mendiants, à l'irruption des cathédrales gothiques et à la naissance d'une littérature profane qui revendique, peu à peu, son autonomie face aux systèmes poétiques latins ou néo-latins? On voit ainsi se mettre en branle un réseau très cohérent d'analogies possibles au sein duquel on commence à soupçonner d'une étrange et singulière gémellité entre l'image ambiguë du marchant (modèle de fertilité et exemple d'une communication restaurée sur lesquels plane cependant le spectre diabolique de l'usure, de l'avarice, de la fraude, du mensonge et de la contrefaction) et celle, non moins ambiguë, du poète, ce démiurge qui se plait incessamment à prendre le lecteur au jeu tout à la fois vain, ludique et subversif des simulacres de la Parole, de la Création et de la Vérité. Sur l'un comme sur l'autre pèse l'anathème de la damnation; tout deux aspirent également – au seuil d'une espèce de Purgatoire du langage – à voir leurs discours accéder pleinement à la légitimité. À une époque où l'on assiste à la désagrégation des valeurs constitutives de la féodalité, où le rapport à un Signifié fondateur et source de toutes références devient de plus en plus lointain et irrécupérable, la fiction et la monnaie frappée émanent comme deux nouveaux modèles de médiation à l'égard de l'objet du désir, comme deux formes d'écriture (analogues bien que distinctes et autonomes) qui modifient profondément les rapports à l'Autre et au monde (et à l'Autre-Monde, bien entendu), aussi bien que la façon dont ils sont représentés, et autour desquelles se bâtissent, en somme, de nouveaux processus de symbolisation. La dualité et la duplicité qui s'instaurent ainsi entre ces deux modes privilégiés de représentation (mentalement et socialement construite) avaient forcément des reflets sur la conception même de la parole poétique. En effet, la façon dont l'imaginaire oblatif (au cœur de l'idéal de la largesse chevaleresque et courtoise, par exemple) dialogue, s'entrelace ou entre en rupture avec l'imaginaire marchand, ouvre à la recherche un domaine riche et unique où il est permis d'observer comment les deux principaux genres narratifs en vers des XIIe et XIIIe siècles (la chanson de geste et le roman que nous analysons le plus en détail) réfléchissent et/ou infléchissent l'univers qui les entoure, et ce faisant, comment ils se questionnent sur leur propre statut et se positionnent l'un par rapport à l'autre par le biais des relations dialogiques ou intertextuelles qu'ils maintiennent secrètement ou explicitement. Si le discours épique apparaît, dans cette perspective, comme une forme qui donne fréquemment corps et voix à l'inconscient idéologique et textuel refoulé ou enfoui dans les innombrables inter-dits et non-dits qui structurent l'imaginaire romanesque (et vice versa), mettant ainsi en évidence les potentialités et les limites d'un certain langage poétique et de la vision du monde qu'il véhicule et qui le soutient tout à la fois, il incombera au récit - que la critique désigne vulgairement de "réaliste" - du XIIIe siècle de pousser jusqu'aux ultimes conséquences ce processus de réflexion (au sens cognitif et spéculaire du terme). En effet, en multipliant illusoirement les "effets de réel" et les références à l'univers économique, ce récit suggère, en fait, qu'il d'existe d'autre réalité de/dans la littérature que celle qui la définit comme un art subtilement tissé par une menaçante et séductrice manipulation (de la) rhétorique du langage et des signifiants où il se miroite continûment. Il ressort de cette nouvelle économie poétique un (in)suspect, mais désormais triomphal et triomphant, rapport entre le poète et le marchant de paroles, entre l'usure et la fiction en tant que reproduction infinie de simulacres et perpétuel déplacement métaphorique d'une signification à la fois sans cesse foisonnante et toujours absente; rapport qui laisse deviner la nature paradoxale, évanescente et profondément trompeuse, du texte médiéval en sa qualité d'éternelle fausse monnaie du signe et du sens. Sujets: Littérature médiévale française (XIIe-XIIIe siècles); Le marchant dans la littérature médiévale; Culture et civilisation du Moyen Âge, Histoire et critique littéraires; Théorie(s) de la littérature (rhétorique, poétique, théorie des genres); Économie et littérature; Langage et imaginaire.
Descrição: Tese de Doutoramento em Ciências Humanas e Sociais na especialidade em Estudos Portugueses e Franceses, Época Medieval apresentada à Universidade Aberta
URI: http://hdl.handle.net/10400.2/2470
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